Sexta-feira, 4 de Novembro de 2005

Impressões escritas

Primeira versão da fábula da cigarra e da formiga

Era uma vez uma formiguinha pequenina e trabalhadora.
Era uma vez uma cigarra robusta e cantora.
Era uma vez uma história simples de dois animais, repercutida de geração em geração com uma moral também simples.
Mas a história foi mal contada, servia apenas para transmitir o valor do trabalho e com o tempo ficou ultrapassada.
Recomecemos a história do início e contemo-la às novas gerações, em várias versões, não ocultando a verdade.
Era uma vez uma formiguinha que tinha fama de chata, viam-na a trabalhar o dia todo, sempre muito atarefada, não desviando os olhos das migalhas que transportava. Desde os tempos da escola das formigas que ela era assim, sempre muito direitinha e aprumada, aprendendo todas as técnicas de transporte de restos de comida e estudando os trajectos para evitar os dedos e os venenos dos humanos. Assim os outros insectos não se aproximavam dela. O que eles não sabiam é que a formiguinha tinha uma vida secreta. À noite, ela vestia umas asas e transportava migalhas que faltavam nos formigueiros pobres, salvava moscas presas em teias de aranha, e ajudava formigas a escapar de dedos humanos pequeninos que gostavam de esmagar formiguinhas indefesas. Ninguém sabia que a formiguinha chata era uma super-heroína. Isto até ter aparecido a cigarra...
A cigarra, dizia-se, passava os dias a cantar. Ninguém a via até cerca do meio-dia quando se levantava e começava a cantoria, parecendo zombar dos outros atarefados insectos. Andava sempre rodeada de amigos, animava todas as festas, trabalhar não era com ela, levava a vida com descontracção, sabendo que no fim tudo lhe correria bem. Era assim que todos a viam, era assim que todos gostavam dela. Mas ninguém sabia que à noite a cigarra trabalhava, ninguém imaginava que ia para a fábrica das abelhas, ajudar a transportar o pólen para os favos. Ninguém sabia até que uma noite a formiga e a cigarra se cruzaram. Apesar das asas, a cigarra reconheceu logo a formiga e ficou espantada. Ela acreditava na versão oficial de que a formiga era um ser chato, que só pensava em trabalho. Também a formiga se espantou, pois acreditava na versão da estouvada cigarra cantora.
Nada disseram uma à outra e passou algum tempo até que a formiga decidiu convidar a cigarra para ir até ao seu cantinho no formigueiro. A cigarra ficou espantada com o equipamento da formiga: computadores, aparelhos sofisticados de audio e vídeo que a formiga usava para saber quando havia alguém em apuros. A cigarra decidiu mostrar também o seu ninho à formiga e foi a vez desta se admirar: era uma casa bonita, limpa e muito tradicional. A cigarra mostrou-lhe os casulos que tricotava e que vendia a alguns insectos e a formiguinha ficou encantada. Ambas prometeram nunca revelar a verdade sobre a sua outra personalidade.
Assim, no Inverno, quando a cigarra foi bater à porta da formiga, os outros insectos pensaram que aquela formiga sovina e emperdenida, lhe negara ajuda e nunca souberam que quer dentro da casa da cigarra, quer dentro da casa da formiga havia comida em muita abundância.
Então, meus meninos, qual é a moral da história?
publicado por impressoesdigitais às 19:05
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4 comentários:
De Anónimo a 5 de Novembro de 2005 às 19:50
Confirma-se então que as minhas suposições estavam correctas. A questão da moral ser «Não julgues os outros pelas aparÊncias» está também correcta?Mauro
(http://cognosco.blogs.sapo.pt)
(mailto:mauro.maia@sapo.pt)
De Anónimo a 5 de Novembro de 2005 às 19:28
Resposta às questões do Mauro: a cigarra não tinha fome, tinha muita comida em casa, mas lembra-te que ela não queria que se soubesse que trabalhava, queria conservar a imagem, a aparência que para os outros era realidade. O mesmo acontecia com a formiga: apesar de ser uma alma caridosa, não queria pôr em risco a sua identidade de super-heroína e preferia manter a imagem de fomiguinha pouco sociável.
Respondi às perguntas?PN
(http://impressoesdigitais.blogs.sapo.pt)
(mailto:pauxana@sapo.pt)
De Anónimo a 4 de Novembro de 2005 às 23:44
Não sei se é da hora, se é de ser o fim da semana e ainda não ser o fim de semana, mas se a comida não faltava na casa da cigarra nem da formiga, se as duas eram muito amigas, porque foi a cigarrra bater à porta da formiga com fome e por razão lhe fechou a porta a formiga? Para proteger as identidades secretas? Para afastar os tablóides, dando-lhes um escandalozito para afastar a atenção da história mais sumarenta? A crítica ao preconceito, à avaliação das aparências não atendendo à verdadeira essência são claras. Que mais me poderá estar a escapar (para além das respostas às minhas questões)?Mauro
(http://cognosco.blogs.sapo.pt)
(mailto:mauro.maia@sapo.pt)
De Anónimo a 4 de Novembro de 2005 às 21:01
Moral? Não sei se terei moral para arriscar, mas, sei lá... Nem tudo o que parece é? E que muitos de nós aquidescemos nas coisas que os outros pensam de nós, jogamos o jogo que nos pedem para jogar, mas quando estamos connosco próprios, temos que fazer o que é preciso...luis
(http://bloquito.blogs.sapo.pt)
(mailto:luismpcardoso1@sapo.pt)

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