Quinta-feira, 3 de Novembro de 2005

Impressões sobre discriminação

Quase três horas de reunião fizeram-me perceber a razão de, pela primeira vez, não conseguir nutrir sentimentos de simpatia para com uma turma. Não me interpretem mal, trato estes alunos bem, mas trato-os simplesmente como alunos, com um mero profissionalismo, sem envolver sentimentos. É curioso, já tive turmas de alunos problemáticos, que me complicavam a vida nas aulas e alunos que quase me fizeram cair em depressão, mas sabiam, salvo um caso ou outro, os nossos problemas ficavam pela sala de aula e acabava por nunca lhes guardar qualquer resentimento, e de uma maneira global gostar deles, já que mesmo nos alunos mais problemáticos via que, fora da sala de aula, até eram "boas pessoas".
Tal não acontece com esta turma. Foram-me "vendidos" como uns "meninos lindos", mas logo nas primeiras aulas percebi que não eram assim tão "lindos". Infelizmente os "meninos lindos" são preconceituosos, marginalizam os colegas que são diferentes. Há um aluno desta turma que, em particular, é posto à parte e tudo porque é um bocadinho diferente. Não vou aqui especificar a diferença que origina a discriminação porque toda a discriminação se baseia em preconceitos ridículos (se é que algum preconceito não o é) e nada justifica que se chamem nomes a este miúdo, seja o último a ser escolhido para formar equipas em Educação Física e que ninguém se sente ao lado dele a não ser obrigado.
Talvez por ter também eu sentido na pele a marginalização quando era adolescente, fico sempre mais sensível a estes casos, apesar de nunca ter vivido um caso tão dramático como o deste rapaz. Mas sei o que é ter de passar os intervalos sozinha, ninguém me chamar para formar um grupo de trabalho, ser a última a ser escolhida nas aulas de Educação Física e a dor que se transforma gradualmente em raiva impotente até se conseguir transformar em indiferença aparente. Passei por isso, sobrevivi a isso graças à força interior que tenho e isso transformou-me numa jovem adulta que não consegue aceitar a discriminação, mas que continua a sentir-se tão impotente para a travar, como há dez anos atrás quando dela era vítima. É que eu consegui ultrapassar e, apesar de às vezes vacilante, tenho consciência de mim própria, do que sou e do que valho. Mas vi outros, mais fracos, não resistirem. Vi uma amiga que se enfiou numa depressão tão profunda que até hoje não se conseguiu libertar, porque os meus colegas de turma foram crueis com ela e eles também eram "meninos lindos".
Sinto-me impotente, consciente de que mudar mentalidades e desfazer preconceitos é uma tarefa muito complicada, mas vou tentar e quem sabe, talvez no final do ano lectivo, consiga chamar a alguns destes alunos "meninos lindos".
publicado por impressoesdigitais às 22:53
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3 comentários:
De Anónimo a 4 de Novembro de 2005 às 23:35
estamos sempre a nos envolver emocionalmente com os nossos alunos, que quando precisamos de distância, acabamos estranhando....eh eh eh..entendo perfeitamente isso..hoje briguei com os meus alunos preferidosMiguel Sousa
(http://www.escolaridades.blogspot.com)
(mailto:desportista@gmail.com)
De Anónimo a 4 de Novembro de 2005 às 13:10
Pronto, lá vou ter que escrever um artigo transpirado sobre racismo no Bloquito. Mas aqui digo isto: o maior cobarde é aquele que teme o que não conhece. Eu sempre consegui passar por cima das discriminações, mas isso agradeço aos meus pais, que sem fazerem a mínima ideia de como, me educaram para ser forte por mim próprio. Eu sempre fui o mais baixinho, sempre fui o último a ser escolhido nas aulas de educação física, tenho uns dedos que serão TUDO MENOS apelativos. E isto tudo antes do maravilhoso acne atacar. E sempre consegui ser o rei relutante de TODAS as turmas em que enfiaram. Não sei porquê nem como, mas o que eu dizia era respeitado e seguido. Via muitas vezes os professores a lançarem olhares de socorro na minha direcção, em alturas de mais ruído na turma. Talvez por essa afinidade me tenha tornado num professor, também...
Mas essa ... "força" ninguém sabe de onde vem, nem porquê, por isso têm que se incutir valores aos nossos miúdos... Esta geração de "totós" de computadores e filmes está a criar uma geração de "jocks", atletas do tunning sem cérebro...luis
(http://bloquito.blogs.sapo.pt)
(mailto:luismpcardoso1@sapo.pt)
De Anónimo a 3 de Novembro de 2005 às 23:06
Já por várias ocasiões se discutiu a problemática do preconceito aqui no blog. É absolutamente execrável tal atitude. Quando eu percebo que alguma situação dessas acontece numa turma, faço por reforçar a presença e participação do aluno, sem ser directo. Não sei se na adolescência fui ou não alvo de atitudes dessas. Estava tão embrenhado em mim e no meu mundo interior que mal recordo acontecimentos externos a mim nesses 6 anos (5º - 12º). Mas não é por não ter consciência de ter sido ou não vítima dele que não deixa de me perturbar, enojar e repelir o preconceito para com outros seres humanos.Mauro
(http://cognosco.blogs.sapo.pt)
(mailto:mauro.maia@sapo.pt)

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