Quinta-feira, 27 de Outubro de 2005

Impressões sobre comparações

Se há coisa que sempre detestei desde a infância, foi a tendência que as pessoas têm de comparar os outros com outros que lhes parecem ser semelhantes de algum modo. Embora não tendo irmãos, os meus pais arranjaram sempre termos de comparação para julgar os meus feitos académicos, por exemplo, e, claro, escolhiam sempre os exemplares que eram mais bem sucedidos do que eu.
Por estes dias revoltei-me com a forma como a escola está a tratar um dos meus alunos que é oriundo de um país de leste. Esqueceram-se de lhe providenciar aulas de apoio a língua portuguesa, e para não me pagarem, depois de várias tentativas absurdas, obrigaram uma das professoras da escola a prestar-lhe auxílio, quando esta já tinha a seu cargo alunos portadores de deficiências. Uma das pessoas que fazem parte do conselho executivo comparou o miúdo com uma outra menina também oriunda de um país de leste, que aprendeu português em 6 meses só com a ajuda da televisão. Pois é, esqueceu-se esta senhora que nem todos somos sobredotados, nem todos somos capazes de aprender línguas rapidamente e se calhar nem todos temos televisão em casa.
Talvez por este tipo de comparações que se fazem haja miúdos que cresçam convencidos de que não têm capacidades, de que são burros, de que são diferentes dos outros. Talvez por isto me sinta às vezes tão desconfortável com o ensino de massas. Talvez por isso admire tanto projectos como a Escola da Ponte. Talvez por isso me tenha sentido como peixe na água quando dei aulas no ensino recorrente e tinha alunos que aprendiam ao seu ritmo, sem terem de ser obrigados a acompanhar os colegas. Talvez por isso seja utópica e sonhe com um ensino que tenha em conta o estilo de aprendizagem dos alunos e que deixe de os comparar através de parâmetros muito pouco fiáveis.
publicado por impressoesdigitais às 19:28
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2 comentários:
De Anónimo a 27 de Outubro de 2005 às 22:08
É esta, sem dúvida, a grande deficiência da democracia (como sistema político): perante a impossibilidade de ajustar as necessidades sociais às individuais trata-se cada pessoa como parte de uma mesma massa homogénea. É verdade que é difícil conjugar as necessidades da massificação com as necessidades individuais, até porque as comparações podem ser armas de 2 gumes: podem desmotivar quando são comparações excessivas e para além das capacidades do indivíduo visado ou servir de estímulo para a superação de dificuldades quando são razoáveis e dentro dessas mesmas capacidades. Por vezes as expectativas pessoais podem interferir com a análise correcta das capacidades que se procura optmizar. Quando pais fazem comparações fazem-no (em princípio e descartando assuntos pendentes de outra natureza) com a expectativa típica de pais que não podem considerar os seus filhos inferiores de alguma forma a outros indivíduos. O seu amor e orgulho parental não o permitem. Não tenho (ainda) filhos, mas se calhar esta minha análise não anda muito longe da verdade (considerando situações de famílias com equlíbrios emocionais dentro dos normais). O que por vezes nos pode parecer crueldade ou insensibilidade pode ser uma forma desajeitada e um pouco infantil de nos dizerem que nos amam e nos consideram os melhores filhos do mundo (considerando, como disse, famílias emocionalmente estruturadas).Mauro
(http://cognosco.blogs.sapo.pt)
(mailto:mauro.maia@sapo.pt)
De Anónimo a 27 de Outubro de 2005 às 20:57
Dentro dessa linha de pensamento, ouvi uma coisa maravilhosa na minha ultima reunião intercalar. Um miúdo com imensas dificuldades, quando foi proposto para apoio, o responsável pelos apoios disse categoricamente: "Não vale a pena. Esse não dá mais nada. Esse com 13 anos não passa do 6º ano." Talvez eu não conheça o miúdo, talvez realmente ele não dê mais, talvez fosse ocupar o lugar de algum que tem hipóteses de fazer algo. Mas ainda assim, custou ouvir como o caraças...luis
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(mailto:luismpcardoso1@sapo.pt)

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