Sexta-feira, 14 de Outubro de 2005

Impressões musicais

A música sempre fez parte da minha vida desde que me lembro. Embora não houvesse em minha casa o hábito de ouvir música, a não ser aquela que surgia na televisão ou pontualmente no velho rádio do meu avô, que servia quase exclusivamente para ouvir as notícias ou o relato, eu comecei a estabelecer uma ligação com ela desde muito cedo.
Na verdade era eu que produzia a música lá em casa, porque cantava o dia inteiro as canções infantis que me ensinavam.
(Esse gosto pelas cantorias, e os elogios à minha voz, levar-me-iam a pertencer a um coro infantil, a ser eleita a melhor cantora da minha turma na escola primária, a ser escolhida no ciclo, depois de uma audição, para cantar uma música numa representação histórica, a frequentar aulas de formação musical que abandonei logo após o 1.º ano ao perceber que não tinha apetência nem paciência para ler pautas).
A música chegava-me na minha infância por empréstimo. De vez em quando o meu padrinho (espécie de irmão mais velho emprestado) lá me deixava aceder aos seus aposentos e escutar as cassetes que ele reproduzia num dos seus dois leitores/gravadores. É claro que na altura a maior parte das letras das músicas que ele escutava me era completamente inacessível, embora eu tentasse reproduzir o que ouvia (anos mais tarde quando as músicas dos anos 80 voltaram a ser ouvidas é que se fez luz), restavam as músicas em português como "O Chico Fininho", "Quero ver Portugal na CEE", "Chiclete". Fora esses momentos, era praticamente só a televisão que me dava a conhecer, por exemplo, a Ana Faria e os Queijinhos Frescos, o Avô Cantigas, "O Fungagá da Bicharada", os Mini-Stars e, mais tarde, os Onda Choc.
Teria de esperar até à conclusão da Escola Primária para receber, como prenda de passagem de ano (costume que os meus pais tinham para me incentivar nos estudos), um rádio-despertador. Foi uma pequena revolução: passei a ter música no meu quarto, a despertar com música, a estudar ao som da música (hábito que nunca mais largaria). Mas depressa comecei a sentir-me insatisfeita: ainda não podia possuir música.
Nessa altura estava a frequentar o segundo ciclo e comecei a ver as minhas colegas com Walkans. A primeira vez que me emprestaram um e pude ter a música ali direitinha aos meus ouvidos, agarrada às minha orelhas, foi uma experiência que nunca esqueci. No entanto, mais uma vez, iria ter de esperar pela conclusão daquele ciclo de estudos para receber um aparelho que lia cassetes. Para azar meu, o aparelho era defeituoso e, ainda hoje, tenho pena da quantidade de cassetes da minha mãe que foram parar ao caixote do lixo por terem sido nele experimentadas e consideradas estragadas. Da selecção feita nessa altura sobraram 5: duas do Júlio Iglésias (que foram parar ao carro do meu pai, apesar deste só ler cartuchos), uma dos Abba, outra dos Bee Gees (Saturday Night) e uma de "demos" dos Rolling Stones (não havia nenhuma canção inteira deles nessa cassete). Estas cassetes acabariam por ser escutadas (até à exaustão) praticamente apenas quando, alguns anos depois, consegui convencer os meus pais a comprar uma enciclopédia de 26 volumes, argumentando que seria muito importante para a minha educação (por acaso, apesar de ser bastante fraca, acabou por me dar algum jeito), mas cuja principal vantagem era, na realidade, trazer consigo uma aparelhagem com leitor de discos de vinil, rádio e gravador de cassetes.
Só a partir desse momento é que passaria a sentir que possuía música. Foi a época das gravações de músicas da rádio para cassetes. Até então não tinha qualquer tipo de consciência musical, não percebia nada de tendências, praticamente desconhecia nomes de cantores ou de grupos. Recordo-me que a minha primeira fixação musical foi o Richard Marx, pelo menos foi esse cantor que eu pedi quando o meu pai, pelo Natal, foi comigo a uma loja de música para eu escolher um disco. Na verdade, era o único nome de cantor que eu tinha fixado, já que gostava de uma música dele e tinha conseguido ler o nome dele no final do videoclip que tinha visto no Top+. Na loja não tinham nenhum disco dele e acabei por levar para casa o N.º1, um album de compilações das músicas de sucesso daquele ano, porque tinha uma música do Richard Marx (ainda cheguei a coleccionar 3 edições do n.º1). Entretanto, quando o cd já estava a instalar-se, eu ia recebendo esporadicamente um disco de vinil, pelo Natal e pelos anos que geralmente correspondia a um gosto musical de quem mo oferecia, do que propriamente um gosto meu. Mas, como sempre fui uma "easy-listener", acabava por apreciar os discos dos Direstraits e do Michael Jackson, entre as bandas sonoras de filmes e de telenovelas.
Foram precisos muitos anos e uma História de Portugal em vários volumes para ter uma aparelhagem com leitor de cds e aproveitar o dinheiro que me ofereciam no Natal para comprar o meu primeiro cd (se a memória não me falha acho que foi um cd do Sting). Os cds eram então objectos caros. Com uma parca mesada de 5 contos eu não tinha muitas hipóteses de os adquirir, por isso, só quando entrei no ano de estágio é que me comecei a presentear com alguns cds, mais ou menos na altura em que aparecia o Napster e se começavam a sacar cds da Internet, que eu não tinha ainda.
Hoje olho para as promoções de cds e acabo por não comprar nenhum. Em dois ou três minutos consigo ter a música que quero, gravar num espaço de algumas horas o cd que preciso para levar para as aulas no dia seguinte e tenho uma quantidade bastante considerável de cds que não ouço. Apercebi-me de que hoje em dia raramente fixo o nome de álbuns, desconheço-lhes a capa, não sei o que vem no livrinho e as músicas são tragadas tão rapidamente que nem perco tempo a perceber as letras.
Tudo isto a propósito de hoje ter recebido no correio um cd de Mozart. Trata-se de uma promoção de uma colecção de cds de música clássica e fiquei chocada pelo facto de, sem qualquer garantia de eu vir a comprar o que quer que seja, sem eu ter demosntrado qualquer interesse, sem eu sequer saber como obtiveram a minha morada, tenham enviado o cd. E que fiz eu? Coloquei-o no leitor para saber se realmente era verdadeiro, passei pelas músicas como quem faz zapping na televisão, desliguei o leitor e até agora tenho estado a ouvir a estação de rádio de sempre.
publicado por impressoesdigitais às 00:47
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